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Por que nem todo material reciclável é reciclado?

Mesmo que 100% do material destinado à coleta seletiva brasileira seja reciclável, não é 100% dele que será efetivamente reciclado. A realidade é que uma porção desse material sempre acaba indo parar em aterros. 


Diante disso, a pergunta fundamental que deve ser feita é: por que isso acontece aqui no Brasil


Para responder, é importante saber que, até recentemente, não havia no país um marco legal regulatório em favor da reciclagem, o que a deixava totalmente à mercê da viabilidade econômica, como se ela fosse tão simplesmente uma commodity de valor flutuante e não o recurso socioambiental imprescindível que é. É bem verdade que os materiais descartados só serão 100% reciclados quando houver uma indústria por trás de tudo, e a existência dessa indústria depende da viabilidade econômica da reciclagem e de seus processos de transformação. Para que tal viabilidade comece a se configurar, as regulamentações e as políticas públicas exercem papel essencial, mas, por serem relativamente novas por aqui, elas ainda têm muito a evoluir. 

 


A reciclagem, composta por vários segmentos industriais independentes entre si, é uma complexa cadeia produtiva que depende de incentivos. Atendendo diversos tipos de indústria, essa cadeia é abastecida por resíduos domésticos – coletados por catadores ou programas municipais de coleta seletiva – e por resíduos recicláveis industriais. 


E quando não há a viabilidade econômica para a transformação de um material, normalmente ele acaba sendo tratado como lixo comum. 


Destacamos dois exemplos que demonstram a falta de viabilidade econômica no mercado da reciclagem: 


1. Existem materiais que são reciclados em uma região, mas não são em outra, por conta da distância da indústria transformadora. Exemplo disso é a embalagem longa vida cartonada, comercializada com relativa facilidade nas regiões Sul e Sudeste, mas descartada junto ao lixo comum em outras regiões pelo custo logístico que seu transporte até as indústrias transformadoras representaria. 


2. Outro exemplo é o custo de algumas transformações. Para serem efetivamente reciclados, muitos materiais precisam passar por processos que encarecem sua transformação e que inviabilizam a reciclagem, como é o caso das bandejas de isopor. Economicamente falando, a transformação delas não vale a pena. 


Estes são apenas alguns dos muitos fatores que representam obstáculos na reciclagem de 100% dos materiais, fatores que, ainda hoje, interferem o desenvolvimento da reciclagem no país. 


Para responder à pergunta fundamental feita alguns parágrafos atrás: nem todo material reciclável é reciclado aqui no Brasil, porque, muitas vezes, falta o contexto econômico para tanto.