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A história por trás da Rainha da Reciclagem

Existem pessoas que nasceram para fazer a diferença, uma delas é Elinéia Gomes de Jesus — Néia ou Rainha da Reciclagem, como é mais conhecida por todos que a cercam. Sua jornada é uma história de aprendizado a todos que a conhecem, e só quem acompanhou sabe a força que uma pessoa determinada a fazer o bem pode transformar e conquistar.

Néia passou por grandes dificuldades em sua infância, resultando em uma vida no submundo do crime, das drogas, da prostituição e, mais tarde, do cárcere. Entretanto, foi dentro da penitenciária que ela decidiu mudar o seu destino, sua vida e sua história. A partir do momento que foi concedida sua liberdade, ela decidiu viver como cabeleireira na grande São Paulo enquanto, no tempo livre, aproveitava para conhecer a igreja e o mundo do evangelho, além de alimentar um propósito de vida. "Eu tinha o sonho de entregar marmitex na rua”, disse Néia.

Certo dia, empresários propuseram ajudá-la, desde que aceitasse o desafio proposto: entregar 9 mil marmitex em apenas 9 dias. Seriam mil marmitex para entregar por dia entre o Natal e o Ano Novo. Desafio que com determinação e um sorriso largo foi aceito.

Com mil marmitex e vestes de Natal, ela gritava pelas ruas da comunidade: “Mamãe Noel chegou!” com bastante alegria e determinação. Entretanto, sua recepção não foi muito positiva. “Eles falaram para mim: comida todo mundo dá, eu quero que você me tire da rua.” Foi mais um desafio para Elinéia, que ligou para todos os amigos que podia, certa de que arrumaria um lar para aqueles homens. Porém, sem que ela percebesse, estava levando 18 moradores de rua para sua própria casa, um pequeno apartamento emprestado. Este foi o motivo pelo qual, depois de 3 meses, ela precisou sair do prédio e começar um novo desafio: vender bala no farol com seus novos 18 hóspedes para encontrar um lar, pagar o aluguel e assim iniciar um projeto social que mudaria a sua vida para sempre. “Se a gente não vendesse, cada um iria para o seu canto viver a sua vida.”

Eles conseguiram. Venderam todas as balas, encontraram um local temporário e mudaram para uma casa maior assim que puderam, no Pantanal, uma comunidade da Zona Leste. O projeto cresceu e abrigou muitos jovens ex-presidiários, ex-usuários de drogas e moradores de rua. Foram mais de cem pessoas em busca de uma condição de vida melhor e muita fome.

O projeto sobreviveu de muitas doações, materiais velhos, móveis antigos e aparelhos eletrônicos quebrados que, muitas vezes, vinham junto com o lixo. Foi neste momento que nasceu a Rainha da Reciclagem, com a percepção de que essas doações podiam ser vendidas e transformadas novamente em matéria-prima. Dessa forma, geraria renda ao projeto que, aos poucos, foi se tornando uma Cooperativa de Reciclagem.

No início, a Rainha da Reciclagem coletava óleo de cozinha usado e todo tipo de material reciclável com um protótipo de carroça. “Recolhíamos alimentos e sobras para a alimentação de todas as pessoas e também fazíamos a reciclagem.” Hoje o caminhão próprio que realiza a coleta seletiva passa por 9 bairros da cidade de São Paulo, coletando em mais de 100 pontos.

A Cooperativa está em um novo galpão, o que possibilitou um aumento de mais de 50% na quantidade de material comercializado. “Toda a geração de renda pra fazer esse projeto social é tirado daquilo que eles [população da comunidade] não têm nem ideia, que eles jogam fora, que para eles é lixo.” Hoje, as 80 toneladas vendidas por mês pagam as contas da cooperativa e são a fonte de renda de 40 cooperados, que retiram em média R$ 600 mensais.  Esse trabalho socioambiental realizado é capaz de mudar a vida de muitas pessoas que um dia se viram como a antiga Elinéia, mas hoje têm uma nova oportunidade para recomeçar.