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A crise mundial do lixo

O lixo tem que ser reciclado em algum lugar. Esse “algum lugar”, para muitos países do Ocidente, era o sudeste asiático, que recebia dos Estados Unidos e de tantas outras nações mais e mais toneladas de despejos. Os problemas desse arranjo começaram a surgir depois que a China parou de importar lixo, no começo de 2018. Os tempos de lá para cá são outros e o sudeste asiático não está disposto a ser a lixeira do mundo.

O levante está tomando forma pelas seguintes razões: o volume dos despejos que chega aos países do sudeste asiático é tão imenso, mas tão imenso, que dar conta dele é problemático e, como se não bastasse, muito desse lixo chega de forma ilegal, em quantidades maiores do que as suportadas pelos destinatários. O efeito final dessas complicações é que, atualmente, engradados de entulho estão se acumulando nos portos da Indonésia, do Vietnã e das Filipinas, atracados assim graças aos conflitos políticos ainda irresolutos, verdadeiras montanhas de entulho com as quais ninguém quer arcar. Além disso, ao redor da Malásia, já são muitos os terrenos baldios tóxicos repletos de plástico da Europa e dos Estados Unidos. 

Como resultado dessas circunstâncias, as desavenças entre nações parecem ser inevitáveis. 

Na terceira semana de maio, o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, ameaçou cortar relações diplomáticas com o Canadá se eles não concordassem em pegar de volta os 69 contêineres de 1.500 toneladas de lixo exportados às Filipinas em 2013 e 2014. E, então, depois que o Canadá se recusou a responder a questão, Duterte garantiu: se medidas não forem tomadas rapidamente, as Filipinas vão, sim, devolver todo o lixo que não lhes pertence – e o farão sobre as águas canadenses. 

No dia 23 de abril, uma investigação da Malásia revelou que entulhos do Reino Unido, da Austrália, dos Estados Unidos e da Alemanha foram despejados no país de forma ilegal, declarados falsamente como outros tipos de importações. A ministra malasiana do meio ambiente, Yeo Bee Yin, declarou: “A Malásia não será o lixão do mundo, enviaremos os despejos de volta aos seus países de origem”. E ela mostrou ser de palavra: pouco depois, 5 contêineres de lixo ilegal oriundos da Espanha foram, de fato, devolvidos pela Malásia. Yeo Bee Yin também afirmou que, cedo ou tarde, 3.000 toneladas de plástico importadas irregularmente retornarão aos países de onde vieram. Como Yeo Bee Yin vem mostrando que não faz ameaças furadas, podemos esperar que isso aconteça dentro em breve. 

Essas atitudes e declarações ilustram bem como os ânimos estão à flor da pele nessa situação toda.

O ponto positivo – se é que podemos chamar assim – é que a atual conjuntura, por sua gravidade, deve acabar por forçar os países do Ocidente a lidar por si mesmos com suas questões de descarte. Assim, quem sabe, os países desenvolvidos, como sempre deveriam ter feito, podem finalmente tirar o fardo do próprio lixo das costas de países em desenvolvimento.