Artigos

A Força da Mulher Cooperada

Quando começou a trabalhar na Cooperativa Filadélphia, em 2010, Vanessa de Souza não imaginava que a reciclagem faria toda a diferença em sua vida. Ingressou no mundo da coleta de materiais por acaso, por precisar complementar a renda de casa, mas teve muitos motivos para continuar na atividade. Um deles foi a força das mulheres da comunidade. 


Pouco a pouco, Vanessa começou a buscar informações sobre seu trabalho e descobriu, ao entrar em contato com outras cooperativas, que os cooperados, sem exceção, deveriam aprender a fundo sobre cada uma das funções que eles exerciam e que a renda obtida deveria ser dividida igualmente entre eles sem que existissem hierarquias. Percebeu, então, que a realidade vivida na Filadélphia era bem diferente dessa. “Éramos 35 mulheres, divididas em 2 turnos: das 6h às 13h e das 13h às 21h. Quando começamos a ter acesso às informações, também começamos a realizar mudanças.” Após 2 anos trabalhando como coordenadora de galpão, Vanessa começou a insistir em mudanças. Queria de todo jeito transformar aquela “empresa” em uma verdadeira cooperativa de reciclagem.


No início, houve resistência, mas o esforço árduo não foi em vão. As 35 mulheres passaram a aderir ao novo sistema, no qual elas teriam voz sobre suas atividades e também direito a aprender sobre todas as funções, tanto as mecânicas quanto as administrativas, para que pudessem criar conhecimento e autonomia. “Eu as incentivo a aprender, e não só executar.” Como o sistema novo trazia benefícios a todas, não demorou para que a aceitação fosse total. 


Vanessa então notou que, antes, quando ainda estava tão próxima das cooperadas com quem estava todo o dia, não fazia ideia do quanto elas dependiam do trabalho ali. Questões sociais como falta de formação acadêmica, racismo e as poucas opções no mercado para mulheres mais velhas faziam com que a relação com aquele trabalho fosse de dependência e de poucos prazeres. Com isso em mente, Vanessa foi mostrando às companheiras, pouco a pouco, que, com o trabalho da reciclagem, é possível comprar um carro, uma casa, uma televisão, celular, roupas e alimentação boa e saudável. Isso ajudou a mudar a visão de muitas colegas suas.  “A gente tem nosso dinheiro, a gente faz o que a gente quer.” 


Em 2014, Vanessa foi eleita presidente da Filadélphia. “E aqui estou até hoje, sempre com o olhar pra frente, pensando no empoderamento feminino.” A cooperativa representa uma oportunidade para mudar a vida de muitas mulheres que se encontram hoje na mesma situação em que Vanessa já se encontrou um dia. “Conseguimos construir um espaço que dá orgulho.”  


É assim, com força e dedicação, que a reciclagem faz a diferença na vida de cada uma dessas mulheres, que lutam dia após dia para salvar o nosso meio ambiente e o nosso futuro.